Moda como forma de expressão e pertencimento

Sabrina Pirrho

Pessoas com nanismo sempre tiveram dificuldades em se sentirem representadas na moda. Desde araras altas nas lojas, passando por modelos com padrão de beleza que exclui corpos diferentes e, claro, roupas com medidas que não atendem pessoas com deficiência. O último final de semana foi de reflexão sobre o assunto com o lançamento da terceira coleção de roupas da Via Voice, exclusiva para quem tem acondroplasia, o tipo mais comum de nanismo.

Dezesseis modelos apresentaram as peças femininas e masculinas. O ator e professor Fernando Vigui, líder do Movimento Nanismo Brasil, falou sobre a importância da pessoa sentir que pertence a uma comunidade através da roupa. “É um direito adquirido, por mais que não esteja previsto através de políticas públicas. A questão da gente ser cidadão, contribuir com impostos e com a sociedade da mesma forma que pessoas de estatura mediana, e, de repente, quando você vai consumir, quando você vai ter acesso àquilo que deveria te incluir, você se sente limitado. Então, é a aquisição de um direito muito importante para a gente. E eu acho que essa, na verdade, é só a capa. Porque, se você for folhear o livro que vai ser escrito hoje, a gente vai entender que vai ser muito mais além disso. Vai a questão de a gente entender que nós estamos sendo percebidos agora, que não estamos mais tão invisíveis”, disse.

Ator e professor, Fernando Vigui

“É muito além de ter roupas para pessoas com nanismo. É pertencimento. E é uma questão de humanização também. Estão nos percebendo, estão entendendo que queremos consumir, que somos numerosos, mas também que isso é importante para a gente e isso nos é devido também”, completou Vigui.

A nova coleção da Via Voice, fundada pela empresária Josi Zurdo, foi além e fez peças de alfaiataria. “A gente começou a marca com modelos muito básicos. Começamos na pandemia, então, nossos primeiros modelos eram moletom e coisas muito confortáveis. Fizemos a primeira coleção e, na segunda, quanto mais a gente produz modelos diferentes, mais a gente consegue ter certeza realmente que os tamanhos estão certos, e a comunidade vai aderindo. Essa coleção é muito especial, porque a gente está com um nível de dificuldade muito grande. Estamos fazendo alfaiataria, jeans, que são peças que precisam estar exatamente do tamanho do corpo. Essa coleção, é importante falar, se chama ‘ocupando espaços’, porque traz toda versatilidade de momentos, texturas e estampas. A gente quer ocupar espaços em todos os sentidos. E, falando de moda, todo mundo tem que ter o seu espaço e para todos os momentos. Nossa missão é produzir, a longo prazo, vestidos de noiva. A gente quer se fortalecer enquanto marca, então agora com a visibilidade do Caito Maia [empresário e fundador da Chilli Beans], a gente quer ganhar outros campos”, contou.

Empresário e fundador da Chilli Beans, Caito Maia e a fundadora da Via Voice, Josi Zurdo

Apoiador da marca e também da causa, Caito não imaginava toda a dificuldade que pessoas com nanismo enfrentavam. “Me sinto até mal. Não tinha ideia do mercado, da causa. Lá no [reality show] Shark Tank, quando eu vi pela primeira vez, me encantou. Fiquei tocado mesmo. E eu me sinto até mal, porque acho que a gente tem que estar consciente disso. A inclusão é necessária para todos. Queria falar que foi uma mudada de vida. Olhei de um jeito muito especial e, hoje, abracei a causa e, no que eu puder ajudar, estou junto”, garantiu.

Entre as peças de alfaiataria da coleção deste ano, as pessoas com nanismo encontraram calça social e blazer, fundamentais para momentos formais, seja no trabalho ou na vida pessoal. A advogada Patrícia Byrro aprovou o resultado. “Como eu estou muito em ambiente formal, e muitas vezes a gente não tem roupas formais para a gente, como terninho, calça social, foi super importante ter essa roupa na minha medida, na hora que vesti, sem precisar de nenhum ajuste. Eu me senti elegante, que estaria pronta para uma reunião, apresentação dentro da minha empresa. E é muito importante a gente se sentir pertencente à roupa e foi esse o sentimento quando coloquei”, contou.

Patrícia Byrro, advogada

Sob medida pra família

A dificuldade para encontrar roupas que se ajustam ao corpo sempre foi grande para pessoas com nanismo. A analista de marketing Maria Rita Hubner é filha de pais que também têm acondroplasia e fazer roupas sob medida era comum para a família. “Muitas vezes, a minha mãe acabava mandando fazer sob medida mesmo, porque era mais prático e mandava certinho. Gastava um pouco mais, mas tinha roupa mais correta para ela. Menos gastos de ir até a loja, comprar e depois ir à costureira arrumar. E, hoje, com a Via Voice, eu acho que é um passo gigantesco para nós, pessoas com nanismo, porque a gente nunca teve oportunidade de comprar uma roupa e sair usando. Com exceção de algumas blusinhas e um vestido ou outro, a maioria das vezes, a gente tem que passar na costureira obrigatoriamente. E, agora, você ter oportunidade de comprar uma roupa pela internet com a Via Voice e a peça chegar em casa e você só vestir, sair usando, eu acho um marco. É bem revolucionário. Até no mundo da moda, que não é inclusiva. Está em passos muito lentos para se trazer corpos diferentes e estruturas diferentes, eu acho que é uma grande revolução”.

Analista de marketing, Maria Rita Hubner

Praticidade e inclusão

A praticidade em comprar roupas sem precisar de ajustes tem sido a maior alegria das pessoas com nanismo ao vestir as peças da Via Voice. “Eu odiava ir ao shopping comprar roupa, porque sempre dá trabalho. Roupa de manga curta era o que eu comprava, mais básico, era tranquilo. Mas roupa de manga comprida, calça, bermuda sempre dão um trabalho absurdo. Eu não estou acreditando que estou vivendo isso, poder ver uma marca que está fazendo roupas especiais para pessoas com nanismo, assim como eu”, se entusiasmou o gestor de expedição Pedro Capelache.

Gestor de expedição, Pedro Capelache

Para a analista de desenvolvimento e treinamento Marcela Perrota, a moda é mais do que roupas, é uma forma de expressão e precisa ser inclusiva. “A moda foi um jeito que eu escolhi, que eu me identifico. A minha personalidade, os meus ideais, eu procuro colocar sempre na moda. Ela não é inclusiva, agora que está começando algum movimento. Mas para pessoa com nanismo, ela não é inclusiva. Só que, de qualquer forma, a gente veste roupa. A gente não está aqui pelado, estamos aqui com alguma roupa. Então, acho que as empresas têm que começar a entender que a gente consome, que a gente trabalha, estuda. E que a gente precisa de roupa para isso. Eu não tenho que pagar mais para vestir coisas que vocês, de estatura mediana, saem da loja com uma roupa. Então, eu acho que a moda é a minha forma de falar para o mundo que eu existo. Eu acredito muito nela. Para mim, não é só uma roupa. É um posicionamento de ideal de vida mesmo”.

Analista de desenvolvimento e treinamento, Marcela Perrota

Catherine Moraes

Jornalista por formação e apaixonada pelo poder da escrita. Do tipo que acredita que a informação pode mudar o mundo, pra melhor!
Comentários

2 respostas

  1. Matéria maravilhosa, muito rica, abordou temas importantes da Comunidade e fez uma cobertura completa do que foi esse evento tão especial, obrigada ❤️

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