Moda inclusiva: a dificuldade de um guarda-roupa para quem tem nanismo

Logo nos primeiros meses, a golinha da blusa ou do body não passa pela cabeça. Para os meninos, as bermudas se ajustam na cintura, mas ficam compridas demais. Para as meninas, as roupinhas de tecido são um desafio e vão sendo deixadas de lado. A idade das roupas não acompanha a idade das crianças e é na adolescência que o desafio se amplia. Um mercado, ainda tímido, tenta suprir as demandas dos adultos que possuem nanismo no Brasil. Para muitos, a moda sob medida ou os ajustes periódicos transformam as costureiras em amigas.

A nutricionista Ana Paula Cazarré, de 29 anos, é natural da Argentina, mas mora no Brasil há 7 anos. Atualmente, a mãe do Cauê, de apenas 5 meses, reside em São José (SC) e conta que começou a passar pelos primeiros desafios de vestir o filho. Calças e camisetas ficam sempre muito compridas e as roupas com menos elasticidade não passam pela cabeça ou apertam nos punhos. “Outro dia, tentei vestir uma gola polo e travou no nariz do meu filho. Dias depois meu marido conseguiu vestir uma, mas a princípio tinha pensado em nunca mais colocar gola polo nele. Percebemos, por exemplo, que precisam ter três ou quatro botões ao invés de dois”, pontua.

Giovanna Taglialegna, de 23 anos, é estudante de engenharia da computação e possui nanismo diastrófico. Moradora de Areado, no Sul de Minas, conta que na infância o processo de comprar roupas era mais fácil. “Personalidade e gostos vão mudando e a gente não quer mais ficar usando roupa de criança. Acho que para mim e para a maioria das mulheres com nanismo, calça é um grande problema. Temos o quadril maior e aí não conseguimos comprar roupa de criança. Geralmente compro tamanho 40, 42 e preciso cortar a metade”, explica.

A estudante também fala de peças específicas, como vestidos, macacões e, ainda, lingeries e biquínis. “Biquíni, lingerie, é difícil de achar. Tenho pouco busto e muito quadril, então muitas vezes preciso mandar fazer sob medida. Às vezes tenho vontade de comprar um macacão ou um vestido mais adulto, sem estampa infantil e é mais difícil de achar. As blusas são mais fáceis, gosto mais largas então esse acaba não sendo um problema”, acrescenta Giovanna.

Acondroplasia ganha marca brasileira

Josi Zurdo, de 33 anos, é formada em design gráfico e fundadora da Via Voice For Fashion, que nasceu em outubro de 2020, no meio da pandemia. A marca, que hoje é exclusiva para quem tem acondroplasia, veste homens e mulheres e teve modelagem desenvolvida de forma específica. Com 1,48m de altura, ela conta que sempre teve dificuldade para comprar roupas que não precisassem de ajuste. Assim, depois de 8 anos trabalhando em um mundo corporativo com Recursos Humanos e Marketing, foi desligada de uma empresa e decidiu empreender por conta própria.

A primeira ideia foi criar uma marca para ajudar as baixinhas, e aí nasceu a Cintura de Boneca. Quando lançou a marca, entretanto, consultou um velho amigo, Fernando Vigui, presidente da Associação Nanismo Brasil, para questionar como era o processo de compra de roupas para pessoas com nanismo. Dessa conversa surgiu um convite para participar do 1º Encontro Nanismo Brasil, em outubro de 2019. A coleção foi replicada para mulheres com nanismo e houve um desfile.

Foi a partir daí que Josi começou a atender fazendo roupas sob medida, e conheceu diversas mulheres e suas medidas. “Com o passar do tempo fui percebendo a necessidade de um olhar específico, uma modelagem diferenciada para atender as pessoas com Nanismo e, somado à procura dos homens que também queriam roupas, decidi que faria uma marca específica. Iniciamos um estudo com homens e mulheres para criação de uma tabela de medidas (P, M e G) e em outubro de 2020 nasceu a Via Voice For Fashion”, explica.

A empresária disse que a marca está caminhando devagar e cita outras que a inspira: No Brasil a Equal Modas, além da Aufaugenhoehe e Customiety no cenário internacional. “As proporções dos corpos são diferentes e foi preciso entender a anatomia para construção dos moldes.  Nossa missão é contribuir para além das roupas. Queremos mostrar para outras marcas que existe esse público e que todos ganham com a inclusão. Queremos levar autoestima e autonomia para as Pessoas com Nanismo, mostrar que elas têm espaço na sociedade e que não há mais espaço para capacitismo”, finaliza. 

 

Catherine Moraes

Jornalista por formação e apaixonada pelo poder da escrita. Do tipo que acredita que a informação pode mudar o mundo, pra melhor!
Comentários

2 respostas

  1. Tenho uma afilhada de 8 anos com acondroplasia e hoje foi sua primeira consulta com geneticista, estou feliz em poder ajudar! Quero que seja independente, empoderada, e boa autoestima kkk amo muito essa menina e quero que seja feliz!! Preciso de muito conhecimento para poder continuar ajudando. O médico disse sobre uma medicação que pode ser aprovada no Brasil que pode beneficiar🙏

  2. Adorei a reportagem, sou acadêmica de moda estou no 5 semestre e sempre gostei de inclusão em todos os aspectos… hj vamos fazer um trabalho de equipe pra desenvolver umas ideias nessa área… quem sabe um dia nos encontramos numa marca inclusiva.

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