Futebol de Nanismo participa de Copa América e luta por reconhecimento e visibilidade

O barulho agudo da chuteira deslizando rapidamente na quadra, o grito de gol ou da defesa impossível, o apito que começa, liberta e encerra. Os sons de um jogo aceleram o coração de quem está em quadra, principalmente de quem realiza ali um sonho. E foi esse o sentimento dos 10 atletas da Seleção Brasileira de Futebol de Nanismo (Brasa) ao disputarem a segunda edição da Copa América, em Lima, no Peru. Na babagem: memórias e esperança.

“Nunca havia me imaginado numa competição internacional. Desde a infância, a gente enfrenta preconceitos com relação à prática de esportes, principalmente no futebol. Tanto é que essa competição não existia. É muito ainda na força de vontade. Ainda são muitas barreiras. Por isso, participar é um momento gratificante e emocionante”. A fala é do vice-presidente do Brasa e capitão da seleção, Marcos Vinícius de Assis Rocha, de 32 anos, e retrata bem a realidade. É que nem todas as competições oficiais oferecem a modalidade para pessoas com nanismo. 

Pra se ter uma ideia, essa foi a segunda edição da Copa América de futebol para pessoas com nanismo. O Brasil conquistou o quinto lugar. Na primeira edição, em 2018, realizada na Argentina, o Brasil ficou na terceira posição. “A gente sabe que existem muitos jogadores de futebol com nanismo, mas que não têm apoio, patrocínio e jogam em competições amadoras. Por isso, com essa visibilidade, acreditamos que a modalidade cresça ainda mais e que sejamos mais valorizados. Hoje, eu sou um atleta paralímpico, mas não vivo do esporte”, ressalta o camisa 10.

O nanismo é inserido, desde 1976, por algumas das modalidades que integram a Paralimpíada e os Jogos Parapan-Americanos, como atletismo, natação, halterofilismo e badminton. Mas no futebol, não. Existem ainda modalidades praticadas por atletas com baixa estatura que não fazem parte do programa dos jogos. Atualmente, esses atletas contam com, além da Copa América, Copa do Mundo – que será realizada em outubro de 2023 na Argentina, e a Copa Árabe. 

A Associação Brasileira de Esportes para Pessoas com Nanismo (Aben) – que é uma extensão do Brasa – busca inserir a pessoa com nanismo em mais modalidades oficiais, permitindo mais apoio e visibilidade. A Aben também, inclusive uma Copa do Brasil em setembro deste ano. Mas ainda no papel. A associação pretende criar núcleos em parceria com clubes e universidades que possam oferecer local e estrutura.

O paulista Bruno Montanheiro, goleiro da seleção, é atleta paralímpico há 10 anos e já acumula mais de 45 medalhas. Ele está entre os três melhores do país na categoria F41. Para ele, participar de uma competição hoje é um ato de amor. “Na Copa América deste ano, por exemplo, conseguimos as passagens em cima da hora. Não conseguimos ir com toda nossa delegação. Mas mesmo diante disso, vestir a camisa da seleção é uma sensação incrível. Segurei o choro várias vezes em quadra. A camisa tem um peso e poder vestí-la é maravilhoso”.

Bruno ainda tem vários sonhos pela frente. “Quero ganhar uma Copa do Mundo, uma Copa América. Quero ajudar a seleção a chegar no topo. Precisamos de apoio pra isso. Precisamos que acreditem em nós. Temos capacidade de representar o nosso país em diversas competições. Mas pra começar, quero respeito e reconhecimento. Hoje, sou uma pessoa muito melhor também por causa do esporte. Todo o meu sofrimento de infância e adolescência, com o preconceito, ficaram para trás. É transformador”, enaltece o atleta que hoje se divide no trabalho como bibliotecário, atleta e estudante de Educação Física.

Kamylla Rodrigues

Kamylla Rodrigues é formada em Jornalismo pela Faculdade Alves Faria (ALFA). Já trabalhou em redações como Diário da Manhã e O Hoje, em assessorias de imprensa, sendo uma delas do governador de Goiás, além de telejornais como Band e Record, onde exerce o cargo de repórter atualmente.
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