É hora de ir para escola: como escolher o melhor lugar para a criança com nanismo

O ano letivo está começando na maior parte das escolas do Brasil. E, se para todos os pais é inevitável sentir aquele “friozinho na barriga”, para quem tem filhos com nanismo a insegurança e as dúvidas podem ser ainda maiores. Será que ele vai ser bem recebido? Há risco de bullying? E a escola, está adaptada às necessidades da criança? Dúvidas assim são comuns, especialmente nos pais de primeira viagem.

Evanize Rodrigues viveu essas questões quando colocou o filho, Abraão Siqueira Lima, de 7 anos, na escola, no interior do Mato Grosso. O menino, segundo a mãe, tem dificuldade cognitiva. Quando ela conversou conosco, no Segundo Encontro Somos Todos Gigantes, esperava pela confirmação ou não do diagnóstico de autismo.

No início do ensino infantil, a adaptação foi mais simples, pois Evanize é professora dessa etapa e levava Abraão para a escola em que trabalhava. “Essa convivência facilitou”, lembra. Agora, o menino está no segundo ano do ensino fundamental e já enfrenta outros desafios. “Ele era chamado de cabeção, mas não demonstra ser impactado”, diz.

Dentro dessa rede de segurança, ela se sente mais tranquila, pois o filho não tem problema de aceitação e não se sente excluído, apesar da tendência de pouca interação com os colegas de escola – daí a suspeita de autismo.

A inclusão de Bernardo, de 4 anos, na escola também não teve muitos contratempos. O pai, Eduardo de Lima, optou por matriculá-lo na escola em que a irmã já estudava, o que facilitou o processo. “Não foi tão traumático”, conta.

Antes do início das aulas, a professora conversou com os demais alunos sobre Bernardo. O resultado foi que ele teve uma boa recepção por parte dos colegas de turma. Eduardo conta alguns critérios que o levaram a escolher a escola do filho: um programa interno antibullying, para ele, é fundamental. A escola, em Brasília, se prontificou, ainda, a fazer adaptações, com a aquisição de uma cadeira menor e um vaso sanitário mais baixo.

Letícia Elias dos Reis é outra mãe que conta que o início da vida escolar da filha, Elisa Mendes Reis, de 6 anos, não teve sobressaltos. A menina começou a estudar em um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), em Goiânia. “Os colegas ajudaram. Como estava em uma estrutura adaptada para a educação infantil, não convivia com alunos mais velhos”, conta. Segundo Letícia, a preocupação não é tanto nesta fase escolar, mas, sim, quando ela começar a crescer. Aos outros pais, ela dá uma dica: “Devemos procurar uma escola onde o coração se abra. Há escolas que não se sentem à vontade [de receber uma criança com nanismo]”, diz.

Especialista dá dicas para escolha da escola ideal

Mércia Rosana: “O aluno deve ser ouvido” | Foto: Arquivo pessoal

Mércia Rosana Xavier é gerente de Educação Especial da Secretaria Estadual de Educação de Goiás e está no magistério há 30 anos. Durante todo esse período, tem se dedicado ao tema. Ela conta que não há um levantamento específico do número de alunos com nanismo na rede pública estadual. “O que é uma falha que temos de corrigir”, admite.

Para ela, o primeiro passo é analisar o nível de interação da criança com o meio. Depois, conhecer bem a escola onde se quer fazer a matrícula (seja pública ou privada). “Os pais devem visitar ao menos três escolas. Nessa visitação, tem de verificar o acolhimento e informar a escola das características desse novo aluno”, diz.

Uma boa medida é que os coordenadores da escola façam uma reunião com os demais estudantes logo no início das aulas. “Os profissionais devem deixar as crianças perguntarem. Elas têm curiosidade, não têm preconceito”, afirma.

Mércia alerta que as escolas têm de ser informadas se há alguma necessidade específica por parte dos alunos, tanto na questão de aprendizagem quanto que questões de acessibilidade (com tamanho do vaso sanitário ou altura dos bebedouros), que são as mais comuns. “A metodologia de ensino normalmente não muda, pois, as crianças com nanismo geralmente não têm dificuldade de aprendizado. Nunca acompanhei uma criança [com nanismo] que tivesse essa dificuldade. Por isso, não há necessidade de metodologia específica para elas”, conta.

Já para os alunos um pouco mais velhos é preciso um pouco mais de cautela em relação às adaptações para acessibilidade. “Ele tem de ser ouvido, já tem alguma autonomia. Será que ele quer uma mesa menor que a dos demais alunos ou prefere utilizar a mesma?”, questiona.

Ouvir o aluno e não apenas decidir por ele é, na opinião de Mércia, fundamental. “Ele tem um desenvolvimento normal e responsabilidade pelos seus desejos e escolhas. É ele que está vivendo na pele [a experiência]. Temos de saber ‘com’ele e não ‘por’ ele”, enfatiza.

Em relação ao bullying, ela alerta que os casos devem ser imediatamente comunicados à direção da escola e, caso não seja tomada nenhuma atitude, eles têm de ser levados à secretaria da Educação dos Estados ou dos municípios (se forem escolas públicas) ou ao Conselho Estadual de Educação (se forem privadas).

“Todos os pais devem exigir posição [da escola]. Essas atitudes devem ser trabalhadas. Se preciso, com profissionais externos”, ressalta.

Dicas de profissional
  1. Avalie o nível de interação de seu filho
  2. Visite ao menos três escolas
  3. Informe se há alguma necessidade especial e se a escola está disposta ou capacitada a atendê-la
  4. Verifique se a metodologia de ensino é a que mais cabe aos anseios da família
  5. Verifique se há adaptações ou barreiras físicas e arquitetônicas. No caso positivo, verifique se a escola pode resolvê-las
  6. Deixe que a criança se manifeste em relação às adaptações, como em relação ao tamanho da mesa de estudo
  7. No caso de bullying, exija uma posição da escola

Rodrigo Hirose

Comentários

Uma resposta

  1. Pois é tenho um baby ,com nanismo e esse ano ele vai começar na escolinha também, fico muito preocupada com esse tipo bullying,mais vou sempre acompanhar tragetoria dele…

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