Caso do menino Quaden Bayle reacende debate sobre bullying e exposição nas redes sociais

“Só quero me esfaquear no coração. Quero que alguém me mate. Me dá uma corda, vou me matar”. As palavras de Quaden Bayle, um australiano de 9 ano de idade, ecoaram pelo mundo, após o vídeo feito pela mãe do menino, Yarraka Bayle, ser divulgado pelas redes sociais. Nele, Yarraka desabafa: “Acabei de pegar meu filho na escola, presenciei um episódio de bullying, liguei para o diretor e quero que as pessoas saibam – pais, educadores, professores – esse é o efeito que o bullying tem”.

Desde então, a vida de Quaden, que tem um dos tipos mais comuns de nanismo, a acondroplasia, entrou em um turbilhão. Uma vaquinha online promovida pelo comediante Brady Williams arrecadou aproximadamente R$ 2 milhões. O menino, cuja família é de origem aborígene, foi o convidado especial de um jogo da liga nacional de rúgbi e teve a oportunidade de entrar em campo de mãos dadas com astros do esporte, tão popular na Austrália quanto o futebol no Brasil.

O porta-voz do Somos Todos Gigantes, Gabriel Yamin Nogueira, gravou e compartilhou um vídeo de apoio a Quaden. “Só queria dizer que você é forte. Que a beleza não está no seu tamanho”, diz Biel, na mensagem, que chama o garoto australiano para ajudar a mudar o cenário. “Eu aqui, no Brasil, e você na Austrália”.

Debate

Diante de tanta repercussão, a história de Quaden reacendeu o debate em torno do bullying e da exposição nas redes sociais. Afinal, uma repercussão planetária tem qual efeito em uma criança? A mãe do garoto agiu corretamente ao publicar o vídeo na internet? E ela colabora para a discussão sobre como preconceito, inclusão e respeito às diferenças? O Somos Todos Gigantes ouviu psicólogos sobre o assunto.

Biel gravou um vídeo de apoio a Quaden

“A exposição nas redes sociais sempre tem de dois lados, um muito positivo e outro muito desafiador”, alerta a psicóloga e empreendedora digital Mirella Nery. Mirella lembra que, quando ocorre tanta repercussão, os grupos organizados se movimentam e o tema acaba discutido. “Isso faz com que as pessoas, de alguma forma, percebam que há a necessidade de mudança. Então, há um envolvimento durante esse período”, diz.

O lado desafiador é que a criança nem sempre tem maturidade para lidar com a questão. “Ela é convidada a crescer, a participar de situações para as quais não está emocionalmente preparada. Quando ela vivenciar e perceber todo o movimento, isso pode confirmar nela que ela tem um desafio e que não consegue superar sozinha”, alerta.

Também psicólogo, o dr. Danilo Suassuna aponta para alguns riscos da superexposição. Para ele, o efeito dela é efêmero. “A pessoa vê uma foto mais trágica e se compadece, mas aquilo passa, aquilo não fica. A pessoa se compadece por 10 ou 15 segundos e depois não entra realmente na temática, defendendo ou compreendendo as questões, como a questão do bullying e do nanismo”, diz.

Outro aspecto a ser observado, segundo Suassuna, é sobre a motivação de quem divulga nas redes sociais, já que, às vezes, a criança nem mesmo entende o que está ocorrendo. “O importante é pensar: essa exposição nas redes sociais está a serviço de quem? Da criança ou da mãe ou do pai que, em algum momento, deseja fazer um apelo ou pedido social?”, questiona.

Dinheiro

O envolvimento de dinheiro na questão é outro ponto delicado. Segundo Mirella, “se foi para as redes sociais, pode, sim, servir de inspiração para muitas pessoas. Tanto para fazer o bem, quanto para fazer o que prejudica”. Suassuna, por sua vez, acredita que a repercussão pode levar a que pessoas usem os filhos em busca de recompensa financeira. “Ele ganhou R$ 2 milhões, mas sabe o que fazer com esse dinheiro? Essa questão preocupa. Deveria haver uma associação para tomar conta desse dinheiro para [beneficiar] todas as famílias, até porque a dor não é só dele, é de uma sociedade, de um grupo”, diz.

De fato, a família de Quaden anunciou que repassará os recursos arrecadados na vaquinha virtual para duas organizações australianas: a Dwarfism Awareness Australia, que auxilia pessoas com nanismo, e a Balunu Healing Foundation, que oferece apoio a jovens aborígenes vivendo em situação precária.

Reação da mãe

Após a publicação do vídeo, no Facebook, a reação da mãe de Quaden chamou a atenção. Para a psicóloga Mirella Nery, foi a reação de uma mulher que não deve ser julgada.

“Foi a reação desesperada de uma mulher que estava aflita, confusa e cansada. Ela teve um curto espaço de tempo para se decidir sobre o que deveria fazer. E, nessa hora, claro, senão não teria feito, ela entendeu que trazer informação para as pessoas ajudaria mais. Não cabe a ninguém decidir se isso é certo ou errado”, diz.

O dr. Danilo Suassuna, por sua vez, prefere não opinar. “O que a gente deve fazer é acolher a dor dela. Talvez ela não tenha sido tão acolhida pelas pessoas que estão próximas a ela. O mais importante é compreender como a dor do outro nos afeta no dia a dia diante de nossa realidade com nossas crianças”, afirma.

Escolas

O drama de Quaden Bayle reacendeu, ainda, a necessidade de se discutir a questão do bullying nas escolas. Mirella Nery ressalta que é preciso distinguir o que é bullying, que é quando a prática de críticas e exclusões é repetitiva e cada vez mais agressiva. “É isso que os pais e as escolas devem identificar, pois, no processo de crescimento das crianças, também faz parte lidar com a exclusão e aprender a superá-la”, afirma.

A forma de reagir às situações, conforme a psicóloga, é que vai determinar se o fato causará ou não um trauma. “A maneira como os pais e as escolas reagem aos fatos é que define os danos psíquicos para aquela criança. Isso precisa ficar muito claro desde o início”, diz.

O dr. Danilo Suassuna explica que cada pessoa reagirá de forma diferente às críticas, que podem ser direcionadas à cor, à altura ou a alguma outra característica física. Ele defende que a discussão acerca do tema tenha uma outra abordagem.  “Quando falamos de bullying, deveríamos falar de aceitação. Para pensar em orientação, é preciso trabalhar com as crianças para aceitar o que é diferente”, afirma.

Gerente de Educação Especial da Secretaria Estadual de Educação de Goiás, Mércia Rosana Xavier alerta que os casos de bullying devem ser imediatamente comunicados à direção da escola e, caso não seja tomada nenhuma atitude, eles têm de ser levados à secretaria da Educação dos Estados ou dos municípios (se forem escolas públicas) ou ao Conselho Estadual de Educação (se forem privadas). “Todos os pais devem exigir posição [da escola]. Essas atitudes devem ser trabalhadas. Se preciso, com profissionais externos”, ressalta.

Mudança começa em casa

A mudança, contudo, não ocorrerá se não começar dentro de casa, com aceitação das diferenças pela própria família. “Ter uma criança em uma condição especial é de fato uma oportunidade de muito crescimento para todos. Mas, se a família não enxerga isso, fica muito difícil, a vida dessa criança passa a ser um peso. E aí, com certeza, vai ficando cada vez mais insuportável para essa criança viver”, diz Mirella Nery.

“Superação de preconceitos é um tema complicado, pois preconceitos todos nós temos. Quando você olha algo, você tem um conceito prévio sobre aquilo. O que precisamos trabalhar são os pós-conceitos, os conceitos que tenho depois que eu conheço aquela realidade, depois que conheço aquela família ou aquele grupo”, complementa Danilo Suassuna.

Fundadora do Somos Todos Gigantes, ao lado do marido, Marlos Nogueira, Juliana Yamin publicou um stories no Instagram do movimento, em que alerta para a necessidade dessa transformação na própria família. “Não adianta eu dizer que meu filho é ótimo, que é perfeito, que pode ser quem ele quiser se, no fundo, acho que ele é vítima ou um coitadinho”, diz.

Leia abaixo a entrevista na íntegra dos psicólogos Mirella Nery e Danillo Suassuna ao Somos Todos Gigantes:

Entrevista – Mirella Nery e Danilo Suassuna 

STG – O que escolas e pais podem fazer para diminuir o impacto do bullying nos alunos?

Mirella Nery
“O primeiro passo é compreender o que de fato é um bullying.

As crianças precisam dos adultos para aprender sobre limites e que as críticas e os julgamentos fazem parte do crescimento e do desenvolvimento delas.

As crianças interagem assim, porque não têm muita noção de limites. Mas se torna bullying quando as críticas, julgamentos e exclusões são repetitivos e cada vez mais agressivos, de forma que a criança não consegue se proteger sozinha. É isso que os pais e as escolas precisam identificar, porque, no processo de crescimento delas, também faz parte lidar com a exclusão e aprender a superá-la para fazer parte do grupo.

Isso a gente vivencia de outras formas na sociedade, enquanto adulto, de maneira velada, pois estamos constantemente sendo excluídos. O ponto essencial das escolas e dos pais é compreender quando realmente é um ato de bullying.

O trauma não tem a ver com o acontecimento, ele se instala na criança após a reação do que foi vivenciado. Se a areação é muito difícil, se é desafiante e a criança entra em um estado de insegurança e se sente desprotegida e pouco cuidada, isso pode se tornar um trauma, uma consequência mais séria do que ela vivenciou. A maneira como os pais e as escolas reagem aos fatos é que define os danos psíquicos para aquela criança. Isso precisa ficar muito claro desde o início.

Os pais e as escolas podem diminuir esse impacto observando a postura com que eles reagem à situação. É muito necessário que intervenham com consciência e responsabilidade. Mas, quando há um alarde muito grande e a questão vira polêmica, pode acontecer de a criança ficar mais assustada e insegura do que com o fato em si.

As crianças reagem à vida conforme o que vivenciam com os pais, que são a segurança principal da criança. A reação deles é fundamental para que a criança suporte ou não passar pela experiência.”

Dr. Danilo Suassuna

“O bullying é apenas a ponta do iceberg.

O mais importante é preparamos nossos filhos para os desafios do mundo. Para preparar a escola para o desafio do enfrentamento ao bullying, a gente tem de melhorar a autoestima dessas crianças, melhorar a autoconfiança, entendendo que elas são diferentes. Compreender essa diferença é muito importante.”

STG- Como as crianças devem ser orientadas para lidarem com a situação, tanto as possíveis vítimas quanto as demais, para que não cometam o bullying?

Mirella Nery

As crianças devem ser orientadas com clareza e segurança. Os adultos que vão conduzir a criança que foi vítima de bullying precisam estar seguros e conscientes da responsabilidade deles nesse papel e da postura interna que eles devem ter na hora de orientar a criança. Os adultos devem lembrar a criança de todos os recursos que ela traz. Lembrá-la da força, das habilidades, de todos os aspectos positivos e favoráveis da vida dessa criança.

Em nenhum momento deve ser negado [o problema], caso a criança realmente traga um desafio. No caso do nanismo, por exemplo, tudo que o envolve, os sintomas, etc, não devem ser negados para a criança. Ela deve ser orientada para que compreenda que vive aquela realidade, mas que o que ela tem de recurso é infinitamente maior. Ela tem muitas possibilidades, isso a torna um ser único e especial.

O adulto que conduz precisa estar seguro para ajudar a criança. Mas, um dos pontos fundamentais, é que muitas vezes a reação do adulto deixa a criança insegura e confusa. Muitas vezes, nós, adultos, não resolvemos os nossos traumas de infância. Não enfrentamos as nossas rejeições e nossas exclusões.

A nossa relação à dor do filho ou das crianças que conduzimos na vida está mais relacionada ao que não superamos em nós que aos fatos externos. Esse é um ponto muito importante, porque, às vezes, o que traz realmente um dano psíquico é a reação do adulto. Nossa tarefa é conduzir uma criança ao crescimento. E se, na hora em que a criança enfrenta um desafio, nos desesperamos juntos e enxergamos o fato como um problema muito grande, a criança entra em uma postura de insegurança e ansiedade muito grande. Essas sequelas, sim, são sérias para a vida dela.

Dr. Danilo Suassuna

Tanto as possíveis vítimas quanto as demais têm de ser orientadas para que não cometam bullying. O bullying é uma coisa muito ímpar, cada um se sentirá ofendido por uma coisa: pela cor da pele, a altura, o tamanho do nariz, o tamanho do pé, a cor do cabelo. A Madre Tereza de Calcutá não fazia palestra contra a guerra, ela fazia a favor da paz. Então, quando falamos de bullying, deveríamos falar de aceitação.

Para pensar em orientação, é preciso trabalhar com as crianças para aceitar o que é diferente. Como na música “Somos diferentes, mas o que é que tem?”, do grupo Brincar como Antigamente”, temos de mostrar a elas que somos diferentes e o que isso tem a ver com o resto das coisas. Não trabalhar o bullying em si, mas preparar a cabeça dessa criança para o diferente.

STG – Como você percebe a reação da mãe do Quaden Bayles, Yarraka?

Mirella Nery

Foi a reação desesperada, de uma mulher que estava aflita, confusa e cansada. Ela teve um curto espaço de tempo para se decidir sobre o que deveria fazer. E, nessa hora, claro, senão não teria feito, ela entendeu que trazer informação para as pessoas ajudaria mais. Não cabe a ninguém decidir se isso é certo ou errado.

Oriento as pessoas há algum tempo a substituir a percepção do certo e do errado pela seguinte questão: isso enfraquece ou fortalece? O que os pais devem perceber, diante de uma situação dessas, é se a atitude que estão tomando enfraquece ou fortalece o seu filho.

A reação dos pais ajuda o filho a compreender que ele tem valor e que pode, sim, transformar a própria vida, ou vai convencê-lo de que ele não tem valor e que as pessoas precisam mudar para se adaptarem a ele? Essa é uma pergunta que os pais devem se fazer na hora de intervir na vida de um filho: se o que escolhem fortalece ou enfraquece a criança. Claro que quando o adulto está dolorido e traz experiências não superadas de dor, é infinitamente mais difícil ter reações que fortalecem [os filhos].

A vida de uma criança se move em torno dos pais. A criança acredita muito que é aquilo que o pai e a mãe acreditam nela. E, muitas vezes, como o adulto tem uma história de vida dolorida, de rejeição, abandono e exclusão quando era criança, muitas vezes teme que o filho seja também excluído. E a dor de vê-lo sendo excluído é muito maior do que se o adulto tivesse superado essas dores anteriores.

Nesse caso, é muito difícil que um pai e uma mãe possam ajudar uma criança, porque não é possível dar um caminho que não se percorreu. Se não aprendi a superar e me posicionar de forma adequada às exclusões, críticas e agressões que as pessoas me fazem, a tendência é que eu me perca quando perceber que meu filho está passando por isso.

Se o que a mãe do Quaden fez o enfraqueceu ou o fortaleceu, só a família deles poderá dizer. Muito mais do que perceber, avaliar ou comentar o que eles estão vivendo, vale muito a reflexão sobre o que escolho viver na minha família, que postura adoto diante das situações desafiantes dos meus filhos.

Dr. Danilo Suassuna

Prefiro não opinar, pois é difícil estar na pele de alguém e entender o sentido e o significado que aquilo teve para aquela pessoa. O que a gente deve fazer é acolher a dor dela. Talvez ela não tenha sido tão acolhida pelas pessoas que estão próximas a ela. O mais importante é compreender como a dor do outro nos afeta no dia a dia diante de nossa realidade com nossas crianças.

STG – A exposição do caso nas redes sociais pode ter que tipo de efeito?

Mirella Nery

A exposição nas redes sociais sempre tem de dois lados, um muito positivo e outro muito desafiador. Quando há uma superexposição que causa um apelo emocional tão grande, os movimentos se mobilizam e o tema é discutido. Isso faz com que as pessoas, de alguma forma, percebam que há a necessidade de mudança. Então, há um envolvimento durante esse período.

Mas é triste pensar que uma criança precisa pagar um preço tão alto por isso. Muitas vezes essa criança é convidada a crescer, a participar de situações para as quais não está emocionalmente preparada. Quando ela vivenciar e perceber todo o movimento, isso pode confirmar nela que ela tem um desafio e que não consegue superar sozinha.

E de alguma maneira todo esse clamor e essa exposição pedem que a família reviva o fato por muito tempo. Essa situação [envolvendo o Quaden] aconteceu há vários dias e desde então estamos falando sobre ela. Imagine o que essa família vai vivenciar no próximo mês e no próximo ano em relação a isso. Essa questão não cessará para essa criança.

A pergunta a ser feita é: os efeitos disso fortalecem ou enfraquecem a criança? Ter de reviver essa situação, ver a mãe e o pai falando de novo, a imprensa em cima, as pessoas se mobilizando para dar dinheiro para a família para que ela tenha um momento de lazer. O que essa criança está entendendo disso? [Ela vai] Perceber que, em função da dificuldade que passou, agora está ganhando atenção e presentes? Relembrando, a reação ao que acontece é que define o comportamento da maioria das pessoas que estão assistindo [ao vídeo].

Então, tudo que vai para a internet tem seu ponto positivo, mas também tem os pontos desafiadores. O uso da internet depende da dose e da maneira. Com certeza, para essa família, houve benefícios, mas também tiveram desafios aumentados, que serão percebidos bem mais tarde.

Dr. Danilo Suassuna

A criança, às vezes, nem está entendendo o que está acontecendo na rede social. Muitas mães e pais acabam expondo muito mais para chamar a atenção para si do que para a criança. A superexposição pode trazer ao ridículo, ao [risco de] sequestro, não há como medir. O importante é pensar: essa exposição nas redes sociais está a serviço de quem? Da criança ou da mãe ou do pai que, em algum momento, deseja fazer um apelo ou pedido social?

Infelizmente, hoje em dia as pessoas gostam muito de ganhar em cima da dor do outro. Então, não sei se a discussão sobre o bullying ou sobre o nanismo ganha com isso. Pode ser que chame atenção, mas existem outras formas da abordar o tema, como no maravilhoso trabalho que é feito no Somos Todos Gigantes com a temática, sem que exista esse apelo para uma superexposição de uma criança ou situação específica.

Esses dias a mãe [Juliana Yamin] postou que o filho [Gabriel] estava indo fazer uma cirurgia e todo muito apoiou. Essa conquista ocorreu muito mais pela simpatia e pelo sorriso. Assim como Madre Tereza de Calcutá e outros líderes que nunca precisaram expor o outro, mas a ideia ou a temática que eles defendiam, e assim conquistaram as pessoas.

Não sou muito a favor desse tipo de apelo porque essa temática, a dor do outro, passa. A pessoa vê uma foto mais trágica e se compadece, mas aquilo passa, aquilo não fica. A pessoa se compadece por 10 ou 15 segundos e depois não entra realmente na temática, defendendo ou compreendendo as questões, como a questão do bullying e do nanismo.

STG – Após a repercussão, o garoto recebeu doações, que chegaram a quase R$ 2 milhões. Qual “efeito colateral” isso pode trazer? Outras famílias podem se sentirem motivadas a se expor?

Mirella Nery

Tudo que vai para a internet e para as mídias e ganha notoriedade traz o risco de ser motivação para as pessoas que estão assistindo. Tanto tudo o que é bom, quanto tudo o que é difícil. Com certeza, se foi para as redes sociais, pode, sim, servir de inspiração para muitas pessoas. Tanto para fazer o bem, quanto para fazer o que prejudica.

O que a gente deve pensar como efeito colateral é o que uma criança aprende com essa experiência, quando ela percebe que a dor, o sofrimento e a exclusão dela geraram um clamor social de forma que as pessoas se moveram para ajudá-la. Essa criança se sente mais forte? Sente que a força está com ela? Ou sente que a força vem das pessoas? Ela aprende que tem valor ou aprende que, se chora ou se reivindica, as pessoas vão se aproximar dela?

As perguntas que devem ser feitas têm de passar por essa ordem. O que de fato esse menino deveria ter aprendido nesse dia? Que ele pode e precisa aprender a resolver a sua própria vida ou que as pessoas precisam aprender e se adequar à realidade que ele trás? São essas perguntas que nos trazem mais clareza.

Não compete falar que a atitude foi prejudicial ou benéfica. Sempre há prejuízos e ganhos, mas a pergunta é: para essa criança o ganho foi maior ou menor? Volto a repetir, isso só vamos ter clareza mais à frente. Mas todo pai e toda mãe, diante de uma situação, sabe se essa situação fortaleceu ou enfraqueceu o seu filho.

Dr. Danilo Suassuna

A repercussão pode ser muito negativa. Ele ganhou R$ 2 milhão, mas sabe o que fazer com esse dinheiro? Essa questão preocupa. Deveria haver uma associação para tomar conta desse dinheiro para [beneficiar] todas as famílias, até porque a dor não é só dele, é de uma sociedade, de um grupo.

Pode ser, sim, que pessoas usem a superexposição dos filhos em busca de uma recompensa financeira, assim como há, por exemplo, nos sinaleiros de Goiânia ou de qualquer cidade, as pessoas mostrando suas dificuldades para que possam arrecadar dinheiro, de novo, em cima da dor do outro. Uma coisa que não é muito saudável para nenhuma das duas partes.

STG – Como as famílias que têm crianças com alguma deficiência, especialmente em relação ao nanismo, podem promover uma transformação de dentro pra fora na aceitação e na superação de preconceitos?

Mirella Nery

O primeiro passo é que os adultos se curem das suas dores, aprendam a vencer os seus medos e, sobretudo, as dores de abandono, rejeição e exclusão. Na nossa cultura, não aprendemos a fazer isso. Aquilo que se vivenciou e não foi superado, na maioria das vezes, é engolido. Quando se engole isso desde a infância, chega o momento em que fatos atuais cutucam a nossa dor.

O maior medo do ser humano é ser excluído, rejeitado, não ser querido e não ser considerado bom o suficiente. Então precisamos vencer esse medo internamente. Quando não vencemos, isso intensifica muito ao percebermos a realidade que nossas crianças estão enfrentando. Assim, quando vamos conduzi-las, ao invés de a ajudarmos a superar, intensificamos a dor delas. Porque dói na gente não só a história de nossas crianças, mas, sobretudo, a nossa história que não foi curada. O passo mais importante, e inclusive determinante para o resultado, é que os adultos se curem emocionalmente e consigam enxergar para além daquilo que falta.

Para ajudar a criança a superar o preconceito e se aceitar, a primeira pessoa que precisa aceitar a condição dela são os próprios pais. Muitos pais acreditam que conseguiram isso, mas, no fundo, ainda não concordaram com a condição dos filhos. E, quando os pais não concordam com a condição dos filhos, perdem força, não conseguem conduzir a criança de maneira que ela fique firme.

Quero ressaltar que, muitas vezes, o dano psíquico é muito pior que o dano físico, porque o dano psíquico pode limitar muito mais a vida de nossas crianças do que aquilo que falta ou que poderia ser melhor nos aspectos físicos.

Acredito fortemente que, se os adultos compreendem isso e fizerem esse movimento interno, então a superação no dia a dia fica mais fácil, pois assim vão saber conduzir a criança. Do contrário, eles vão pesar a vida dessa criança, ela vai sentir que é um problema para a família e não um recurso. E, na maioria das vezes, uma criança que traz uma condição especial é um recurso muito forte, porque ela contribui para que toda a família cresça muito mais que uma criança com um destino comum, com todas as facilidades e benefícios da saúde.

Ter uma criança em uma condição especial é de fato uma oportunidade de muito crescimento para todos. Mas, se a família não enxerga isso, fica muito difícil, a vida dessa criança passa a ser um peso. E aí, com certeza, vai ficando cada vez mais insuportável para essa criança viver.

Nossas crianças precisam da nossa cura, da nossa cura psíquica.

Dr. Danilo Suassuna

Acho que é bem isso que já estamos acompanhando no movimento Somos Todos Gigantes. Uma conscientização social não acontece do dia para a noite, não acontece como fogo de palha que vem, cresce e ganha grandes proporções. Esse é um movimento diário, constante, de conscientização um a um. Como as pessoas costumam dizer, é um trabalho de formiguinhas, que fazem um formigueiro gigante e se protegem entre si. As formigas, inclusive, doam as vidas pelas outras.

A gente tem um exemplo maravilho na nossa cidade. No último congresso [do STG] que tive oportunidade de participar, tivemos pessoas do Brasil todo, tendo o evento como grande referência em suas vidas. O processo é devagar, não existe milagre, do dia para noite não vamos conseguir fazer uma transformação social. Toda transformação social acontece com o tempo.

Superação de preconceitos é um tema complicado, pois preconceitos todos nós temos. Quando você olha algo, você tem um conceito prévio sobre aquilo. O que precisamos trabalhar são os pós-conceitos, os conceitos que tenho depois que eu conheço aquela realidade, depois que conheço aquela família ou aquele grupo.

Rodrigo Hirose

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