“As pessoas me vêem como referência e inspiração. Isso é surreal”, diz Gabriel Yamin

Gabriel Yamin tem 14 anos. Ele nasceu com acondroplasia, o tipo mais comum de nanismo. Mas, com uma história nada comum, começou a ajudar a transformar o nanismo no país. Em 2015, quando ele ainda era criança, os pais Marlos Nogueira Juliana Yamin lançaram a hashtag #SomosTodosGigantes, que virou um movimento, depois um site especializado e, em 2020, se transformou em Instituto Nacional de Nanismo (INN). O grupo, que agora reúne diversas famílias pelo país, luta coletivamente pelas mudanças, pelo fim do preconceito e pelos direitos de quem se escondeu por tanto tempo. Uma nova geração de gigantes agora vê no Biel um exemplo de força e de superação.

Biel, o apelido da casa se estendeu aos demais membros da família de gigantes. Em entrevista ao Somos Todos Gigantes, que se tornou o maior portal sobre o assunto do Brasil, ele conta como descobriu que tinha nanismo. Além disso, se emociona ao falar sobre a proporção que o movimento tomou e apesar de ainda jovem, ser visto como referência principalmente para as crianças.

Você tem noção de como a sua história acabou unindo tanta gente? Consegue perceber a proporção disso?

Nossa… é realmente surreal! No começo do Somos Todos Gigantes (STG), eu achei que isso ia ficar entre amigos próximos e, no máximo, amigos desses amigos… Hoje, temos mais de 10 mil seguidores no Instagram e estamos só no começo. E nos encontros, as centenas de pessoas que participam sempre chegam em mim e falam como a minha história mudou a vida delas. Eu fico sem palavras pra descrever isso. Eu nunca me senti um “ícone”. Nunca me senti alguém que faria tanta diferença na vida de qualquer pessoa fora meus pais, mas, hoje, milhares de pessoas me veem como inspiração e como uma referência, e isso é surreal. Eu sei disso, mas nunca vou saber a real proporção que isso tem.

Como a sua vida e a da sua família mudou em prol de outras histórias?

Com o crescimento do movimento, eu fui amadurecendo e percebendo o quão grande era essa responsabilidade, e minha família sempre me ajudou nesse processo de evolução e ‘adaptação’. Com o passar dos anos, mais famílias nos procuravam e nos contavam suas histórias, cada uma diferente da outra. Sempre buscávamos acolher e auxiliar essas famílias nas dificuldades enfrentadas por elas, e acho que isso fez com que a gente virasse essa família gigante que hoje é o STG.

A ideia de transformar o movimento em INN foi sua? Nestes meses de instituto, apesar da pandemia, é possível ter uma ideia de quantas mudanças ocorreram?

Sim! Foi minha! Tem tempo, acho que ainda não dá pra perceber tantas mudanças, mas elas aconteceram principalmente na parte legal: nós começamos a nos engajar mais nas políticas públicas; agora respondemos legalmente por um Instituto, e não mais por um movimento. Acho que essas foram as principais mudanças nesses meses. Ainda tem muito a ser feito, mas a gente já deu um passo enorme criando o INN.

Todas as pessoas que entrevisto se emocionam ao falar de vocês e isso é muito legal porque vocês estão mudando histórias e possibilitando encontros incríveis. Quando é que você, como criança, entendeu que tinha nanismo?

Eu tinha uns 5 ou 6 anos. Já me percebia menor do que meus irmãos e amigos, mas achava normal, e não me incomodava com isso. Um dia, na escola, uma amiguinha chegou em mim e falou que sabia o porquê de eu ser mais baixinho. Eu, surpreso, perguntei “Sério? Por quê?”; ela me respondeu que o ‘papai’ (dela, mas eu entendi que era o meu) disse que eu era anão. Na hora, eu fiquei triste- não me imaginava um “anão”, principalmente porque eu achava que anão era um adulto que não crescia e ficava do tamanho de uma criança pra sempre.

Cheguei em casa, chateado, e contei pra minha mãe. Ela chamou meu pai, que estava almoçando fora no dia, e disse que o ‘Dia’ tinha chegado. Ele voltou pra casa correndo e minha mãe começou a contar a minha história. Depois, ela me explicou que eu tinha nanismo, e falou o que isso significava. Lembro de pensar que todos os meus sonhos de ser um grande esportista ou piloto de fórmula 1 (coisas com que sonhava na época) tinham ido por água abaixo. Tentei segurar o choro, mas algumas lágrimas foram desobedientes. Demorou um tempo pra processar tudo o que tinha acontecido, mas depois eu passei a levar isso numa boa, e isso foi fundamental pra minha vida.

Você é muito maduro para a idade que tem. Acha que de alguma forma esse envolvimento com o instituto te fez amadurecer mais depressa?

Com certeza! Como eu falei, é MUITO prazeroso fazer parte desse movimento, mas é uma responsabilidade grande. Como eu comecei muito novo e o STG cresceu depressa, logo tive que assumir essa responsabilidade, e isso me ajudou muito a amadurecer e me tornar, hoje, esse cara que os adultos chamam de “Biel” e, os mais novos, de “tio Biel”.

E por fim, queria saber como você se sente hoje, adolescente. Tem algo que o nanismo te impede de fazer? Você é muito ativo, faz esportes, toca piano… existe limites pra você?

Hoje, eu me sinto normal (rs). Não tem nada que o nanismo me impeça de fazer, tanto fisicamente quanto psicologicamente, e isso é ótimo. Até porque eu sou muito ativo, gosto de fazer (quase) tudo. Não consigo pensar em algo que me limite, fora algumas coisas da vida, como tempo e dinheiro (rs). Mas, fora isso, acho que eu consigo fazer tudo que eu gosto.

Já sofreu preconceito de alguma forma?

Eu não me lembro de ter sofrido nenhum tipo de preconceito até hoje, mas acho que isso é muito por causa do jeito como eu trato olhares e alguns comentários – sempre os enxergando como de curiosidade ou de pena. Agora, é fato que o preconceito existe sim e é algo que precisamos combater urgentemente, eu não estou aqui pra negar isso. Mas não me lembro de ter sofrido até hoje.

 

Catherine Moraes

Jornalista por formação e apaixonada pelo poder da escrita. Do tipo que acredita que a informação pode mudar o mundo, pra melhor!
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