Trabalho: qual seu papel em nossa vida?

Pessoas com deficiência, em muitos casos, podem se aposentar por invalidez. No entanto, o convívio profissional e a sensação de conquista, superação e pertencimento que nossa atividade pessoal pode nos proporcionar são essenciais para a nossa qualidade de vida. Vamos acompanhar entrevistas exclusivas com duas profissionais de áreas distintas que lidam diretamente com os desdobramentos do nanismo, seja vivenciando na pele ou em família, a relação da deficiência física com a realização profissional.

Barbara de Castro Oliveira, 28, Psicóloga e Coach, Pós graduada em Gestão de Pessoa e irmã da nossa gigante Lorena de Castro Oliveira, estrela da nossa série Amor Sem Tamanho.

STG: Bárbara, onde você atua e qual a área?

Atuo como Psicóloga Clínica e Coach, com foco no desenvolvimento humano e carreira

STG: Como seus pacientes com deficiência física lidam com um mundo pouco preparado para receber as diferenças?

Com pessoas com qualquer tipo de deficiência, temos que trabalhar muito a questão da aceitação. De várias formas. Primeiro, a autoaceitação. Compreender não apenas as dificuldades da pessoa com deficiência e também as potencialidades talentos, capacidades desta pessoa. Tanto a própria pessoa, quanto também o mundo e a cultura que a rodeia tende a focar a se questionar das dificuldades. Não temos uma cultura que trabalha as potencialidades da pessoa. Mas, claro, também temos que ter um olhar de não ignorar as dificuldades, mas de sanar qualquer dificuldade em qualquer ambiente… Por exemplo: no ônibus, precisa de uma rampa, a pessoa com nanismo, por exemplo, precisa de um banco para alcançar uma pia, questões que são adaptações para dar qualidade de vida para que as potencialidades possam emergir.

Importante trabalhar com essas questões de aceitação. Tanto da pessoa reconhecer o básico que precisa para trabalhar, para ter condições de não trabalhar suas dificuldades mas suas potencialidades. Do melhor que eu tenha para oferecer. Seja num ambiente de trabalho, família, amigos, de onde eu estiver. Porque eu não sou uma deficiência física, eu sou muito mais do que isso. E é isso que nós precisamos entender, compreender e aceitar, inclusive.

STG: Na sua opinião, qual a importância do trabalho especialmente na vida de quem precisa de integração social?

É importante a gente parar para pensar que o trabalho não é apenas a forma da gente conquistar bens materiais, isso é a consequência do trabalho. O Trabalho é a forma que temos de mostrar ao mundo a que viemos. Por que eu estou no mundo? Por que você, Rafaela, está no mundo. Por que minha linda irmã Lorena, está no mundo. É a forma como a gente tem como colocar a favor do outro os nossos talentos, aquilo que temos de melhor, e a partir disso, o trabalho nos proporciona as conquistas materiais e principalmente este sentimento de pertencimento, de sermos úteis, produtivos.

Então além de ter essa importância da integração social sim, a importância do trabalho na vida das pessoas e principalmente daquelas que precisam de uma integração social maior e de que temos um significado muito maior do que apenas a deficiência física, ou conquistar materialmente o mundo. O trabalho entra para trazer significado e propósito na vida das pessoas, e independente de eu estar integrado ou não socialmente, isso é muito relativo, quando eu me encontro num trabalho que tem significado e propósito para mim, que é muito além de ganhar dinheiro, a integração social vem com muito mais facilidade e aceitação, tanto da própria pessoa quanto do outro porque o trabalho não é fim de integração social, ela passa a ser consequência.

STG: Algumas pessoas se isolam. Na sua opinião, quais as consequências emocionais para as pessoas que se isolam?

O isolamento, temos que ter um olhar generoso sobre isso. No sentido de que nós criamos mecanismos de autodefesa até para podermos lidar com medos. Até porque nossa cultura não valoriza nossas facilidades mas nossas dificuldades, medos, tudo o que consideramos negativo. Isolamento entra como mecanismo de defesa para a gente não ter que lidar com o medo, com a culpa, com algum tipo de defesa que não foi bem trabalhada psicologicamente em relação à aceitação. À própria aceitação.

Com isso, o isolamento pode gerar sentimentos autodestrutivos. De vergonha, incapacidade, culpa, não merecimento. Que podemos gerar algumas doenças como depressão. Quando a pessoa se isola é importante a gente respeitar o espaço do outro mas acima de tudo mostrar caminhos de como ela pode sair mas entender que cada um tem um limite. Nem sempre a pessoa vai viver entre grupos de amigos, estar trabalhando em uma empresa, ser popular… A gente tem esta tendência de colocar uma utopia, metas inalcançáveis para nós mesmos. Não estar isolado é se sentir integrado. Pode ser um ambiente de duas pessoas ou 20. Não importa. O que importa é o bem estar. A saúde física, psíquica e emocional desta pessoa.

Patricia Costa Byrro, 28, advogada com acondroplasia

STG: Como foi para você ingressar no mercado de trabalho?

O meu primeiro emprego foi como Auxiliar Administrativo na própria Universidade que cursava Direito. Comecei a faculdade com 19 anos e logo no 2º semestre arrumei um emprego de carteira assinada. Com o advento da Lei que obriga as empresas a contratarem um percentual de funcionários com deficiência, naquela época as ofertas foram surgindo.  

O motivo do meu ingresso no mercado de trabalho foi para ajudar nos custos com a faculdade. No entanto, como o curso exigia estágios acadêmicos, tive que dedicar alguns anos fazendo estágios e não mais como carteira assinada. No fim do curso, também estava apertada com os custos e voltaram a surgir ofertas das empresas que estavam com vagas abertas para PCDs. Quando me formei estava trabalhando como Assistente Administrativo numa multinacional. Ingressar no mercado de trabalho foi fácil, pois como falei acima, o advento da Lei de Cotas para Deficientes proporcionou várias ofertas e as empresas estavam precisando cumprir a cota. No entanto, o que percebi desse ingresso é que, infelizmente, as empresas destinam vagas operacionais e de baixo custo apenas para cumprirem a cota e não serem multadas.

Todas as ofertas que recebi limitavam em serviços administrativos e não havia vagas para áreas técnicas, nas quais os profissionais com qualificação poderiam ingressar e ter um plano de carreira. De fato, eu formei empregada, mas não dentro da minha área. Acredito que hoje as ofertas também são grandes, mas dentro de vagas limitadas.

STG: Aproveitando sua especialidade pode nos atualizar sobre como funciona o benefício da aposentadoria para deficientes físicos? Quem tem direito?

Aposentadoria por Tempo de Contribuição da pessoa com deficiência: nessa modalidade o que é levado em conta é o tempo de contribuição para a Previdência e, simultaneamente, o grau da deficiência. Ou seja:

Homens: Deficiência Grave: 25 anos; Deficiência Moderada: 29 anos e Deficiência Leve: 33 anos.

Mulheres: Deficiência Grave: 20 anos; Deficiência Moderada: 24 anos e Deficiência Leve: 28 anos.

Comprovando a deficiência, através de perícia médica feita pelo INSS e o tempo de contribuição descrito, o segurado tem direito ao benefício. Trata-se de uma Aposentadoria Especial, em razão da condição de pessoa com deficiência. Essa modalidade é devida ao segurado empregado, inclusive o doméstico, trabalhador avulso, contribuinte individual, facultativo e ao segurado especial que contribua facultativamente.

– Aposentadoria por Idade da pessoa com deficiência: o segurado deve contar com o tempo mínimo de 15 anos de contribuição, cumpridos na condição de pessoa com deficiência, independente do grau. Cumprida esta carência, esse tipo de aposentadoria é devida a todas as categorias de segurados aos 55 anos de idade para mulher e 60 anos de idade para os homens.

Vale ressaltar que nestas duas modalidades o segurado aposentado pode continuar trabalhando normalmente, sem precisar se afastar da atividade que exerce.

– Aposentadoria por Invalidez: esse benefício concedido pela Previdência leva em conta a incapacidade do segurado, que em razão de alguma moléstia ou incapacidade, não pode exercer mais atividades laborais. Nessa modalidade, o segurado tem que ter sido acometido de alguma incapacidade (seja congênita ou adquirida) e a sua condição não permitir exercer mais o trabalho. Atenta-se para o fato que a incapacidade pode se dar de forma repentina, ou seja, antes a pessoa possuía condições normais e em razão de acidente ou doença teve alguma incapacidade.

Há diferenças das demais aposentadorias apresentadas, na medida que NÃO é requisito para adquirir esse benefício o tempo de contribuição ou idade. A carência mínima é de 12 meses de contribuição.

A incapacidade do segurado precisa ser total ou permanente para o trabalho, caso contrário poderá ser convertida em Auxílio Doença.

Vale ressaltar que essa aposentadoria pode cessar a qualquer momento, ou seja, caso a perícia do INSS detecte que o segurado está em condições de trabalhar e exercer atividade, o benefício é interrompido e o segurado volta para o mercado de trabalho.

Nessa modalidade é necessário um Laudo Médico que ateste a incapacidade para exercer funções e atividades. A deficiência, moléstia ou incapacidade deve ser provada como fator determinante para a não condição de trabalho.

STG: Você gostaria de se aposentar? Pq?

Acredito que a aposentadoria é um direito e pretendo sim me aposentar. No entanto, me aposentaria na modalidade de tempo de contribuição ou idade, pois mesmo tendo Nanismo acredito que tenho condições sim de estar no mercado de trabalho exercendo alguma atividade.

STG: Você acha que o trabalho traz outros benefícios para os deficientes físicos para além do dinheiro?

Com certeza. Acredito que o trabalho não é apenas ganhar dinheiro e sim se sentir útil e exercer alguma atividade que o faça feliz. Não vou negar que há muitas dificuldades no mercado de trabalho, principalmente para as pessoas com deficiência. É ilusão achar que não haverá preconceito ou dificuldades. No entanto, devemos acreditar que a deficiência não limita a nossa capacidade de sermos quem queremos ser. É apenas uma condição. Exercer alguma atividade que nos faça feliz, além de ser algo prazeroso, mostra para as pessoas que não é uma condição que vai nos limitar e nos deixar fora da sociedade. Precisamos acreditar que somos capazes e que há lugar para nós neste mundo. Não devemos ficar de fora por acharmos que não somos capazes. O trabalho traz benefícios pessoais e sociais. Por mais que seja difícil estar em um mercado de trabalho, quando sentimos que estamos sendo úteis e que podemos sim alcançar nossos objetivos, todo esforço vale a pena.  

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Rafaela Toledo

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