O caso da menina Luiza e a luta diária pelo fim do preconceito

Um vídeo no Natal divulgado no aplicativo TikTok gerou comoção e repercussão nacional nesta semana. Em pauta, infelizmente, o preconceito contra uma menina de apenas 8 anos, que possui nanismo diastrófico. Luiza Vitória Rocha postou um vídeo dançando na conta da mãe, a jornalista carioca Gisele Rocha, de 33 anos. A criança não imaginava a repercussão e os mais de 250 comentários debochando da sua condição física. Ela chegou a responder e pediu que as pessoas parassem, mas, sem sucesso, mostrou pra mãe. Gisele denunciou os comentários e, por mais inacreditável que possa parecer, teve a conta banida no aplicativo. Sim, a vítima foi expurgada, nao os agressores. Em seguida, registrou um Boletim de Ocorrência virtual junto à Polícia Civil do Rio de Janeiro (RJ).

Há pelo menos cinco anos o movimento Somos Todos Gigantes (STG) luta contra o preconceito às pessoas com nanismo. Foi daí que nasceu o Instituto Nacional de Nanismo (INN). O objetivo principal: orientar e fortalecer famílias que passam pela mesma situação com um diagnóstico de nanismo, mas, além disso, orientar outras famílias. Numa realidade utópica – e, sabemos, não tão próxima – eliminar o preconceito. “A gente precisa orientar dentro de casa. O Somos Todos Gigantes é um movimento que partiu da família de uma criança com nanismo. E nós não sabíamos que poderíamos ter um filho com nanismo.  Qualquer casal, mesmo de estatura considerada normal, pode ter um filho com nanismo”, pontua a presidente do INN, Juliana Yamin.

Por meio do Instagram e do Facebook, dezenas de compartilhamentos aconteceram em apoio à Luiza, após a mãe divulgar o ocorrido. Neste domingo (27), a jornalista utilizou o perfil pessoal e o da filha para agradecer o apoio recebido. “Quero agradecer a todos pelo carinho, pelos compartilhamentos, e só compartilhei porque esse preconceito precisa acabar. A gente sabe que é uma utopia, mas precisamos lutar. E mesmo sabendo que o preconceito vai existir, a gente tem que lutar e colocar pra fora quando isso acontecer. Eu acredito no poder da inclusão. Na hora que aconteceu eu falei que ela não ia ter mais o TikTok, mas a Luiza passa o dia todo fazendo essas dancinhas e eu não me sinto no direito de tirar por causa de pessoas ruins. Ela vai ter a conta dela e vamos continuar usando o aplicativo. As pessoas com deficiência não têm que se esconder”, finalizou.

Gisele diz que a filha não entendeu a repercussão por completo e que no início até respondeu: “Gente, parem com esses comentários. Eu estou triste”. O crescente número de comentários, entretanto, fez com que ela pedisse ajuda pra mãe. “Ela disse que também tinha muita gente falando que ela era fofa e linda.  O apoio é fundamental. São pessoas que se sensibilizaram com a nossa luta. Antes de postar eu não ia deixar mais ela ter TikTok. As pessoas me mostraram que a culpa não é da Luiza, e sim das outras pessoas”, completa Gisele.

Juliana, do INN, lembra que este não foi o único caso que marcou 2020. Em março deste ano, a história do menino Quaden Bayle, um australiano de 9 ano de idade com nanismo rodou o mundo todo. “Só quero me esfaquear no coração. Quero que alguém me mate. Me dá uma corda, vou me matar”. Estas foram as frases do menino em um vídeo divulgado pela mãe após o garoto sofrer episódios de bullying na escola. “O TikTok é uma rede muito mais de crianças e adolescentes que de adultos. O caso do Quaden Bayle também mostrou isso, que o preconceito está muito arraigado no universo infantil e adolescente. Precisamos instruir os nossos filhos. Que a gente não tenha filhos preconceituosos porque isso também é muito triste”, completa a presidente do INN.

Desinformação

Para Yamin, a desinformação também é grande inimiga. “Esse preconceito socialmente aceito, as gerações de que as pessoas com nanismo podem ser motivo de piada, que é engraçado ter nanismo. Que aproveitemos o caso da Luiza, que infelizmente passou por isso, para informar nossos filhos. Isso não é piada. Não tem graça ter uma deficiência, seja ela qual for. As pessoas merecem respeito, merecem ser vistas como seres humanos e essa é uma luta diária das famílias e do Instituto”, finaliza. 

Catherine Moraes

Jornalista por formação e apaixonada pelo poder da escrita. Do tipo que acredita que a informação pode mudar o mundo, pra melhor!
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