Nó em pingo d`água

Em um país onde conseguir estudar

Em um país onde conseguir estudar, de verdade, é quase um luxo, quem faz isso com mobilidade reduzida dribla o impossível. Adaptações nos móveis escolares podem ajudar nesta árdua jornada

Foto de Arquivo/ Rafael superando barreiras de acessibilidade

 

No Brasil mais da metade das escolas funciona sem esgoto encanado; quase um terço, sem rede de água e um quarto sem coleta de lixo, de acordo com dados do Censo Escolar 2014. Acessibilidade então está longe de chegar a muita região longínqua do país.

 

Dados divulgados pelo G1 indicam que apenas 23 municípios do Brasil contam com todas as suas escolas acessíveis – incluindo banheiros totalmente adequados para quem tem necessidades especiais.

 

A grande dificuldade de adequação se justifica pela idade avançada da maioria dos prédios públicos que abrigam instituições de ensino. Na época de suas construções não havia discernimento nem regulamentação sobre as necessidades especiais.

 

De acordo com dados do Censo Escolar, há cerca de 700 mil alunos com alguma deficiência matriculados hoje no ensino básico – um número que não pára de crescer. Os avanços na acessibilidade das instituições de ensino são inevitáveis.

 

Especialmente na área rural, a inclusão de crianças com mobilidade reduzida é extremamente difícil pela falta de estrutura. O desafio dos órgãos públicos de educação é considerável. Entretanto, números indicam que o avanço na área da acessibilidade também é. Entre 2010 e 2014, subiu em 10% o número de escolas com estruturas adequadas de acessibilidade para quem tem mobilidade reduzida.

 

Os números falam

Laís Milhomem de Carvalho tem 13 anos e não usa mais os móveis adaptados. Ela está desde a primeira série no Colégio Público EMEF João XXIII em Butatã, São Paulo, onde foi recebida de acordo com sua necessidade. Logo na segunda série começou a utilizar móveis adequados para baixa estatura, oferecidos pela própria escola.

 

Foto de Arquivo

Filha

Laís exibindo charme para a foto

 

Ela usava uma cadeira com o encosto mais proeminente e um apoio para os pés. “Com o apoio ela não sentia mais tanta dor nas pernas de tanto ficarem penduradas”, esclarece a mãe, Márcia Milhomem, 36.

 

Segundo ela, o móvel ajudou muito, mas em casa ela preferiu não fazer adaptações. “Quando ela era mais nova, fui à casa da Kênia (daqui de São Paulo), e eles não me recomendaram fazer muitas mudanças, porque o mundo não é adaptado. Eu fui atrás das adaptações na escola porque eu não gostava de ver a dificuldade dela então fiz o que podia para tornar os dias mais agradáveis. A escola aceitou sem problemas. Hoje eles têm bebedouros baixos, rampas, o que não tinha antes”, conta. Laís influenciou a adequação da escola dentro de normas corriqueiras de acessibilidade.

 

Escola Privada

“Quando fui colocar o Rafa na escola, procurei a diretoria e disse que gostaria de tirar uma foto da cadeira para mandar fazer uma igual, porém adaptada. O diretor foi muito legal, adorou receber o Rafa e no final pediu para um funcionário buscar uma cadeirinha no estoque e me deu para eu fazer os ajustes”, contou a mãe de Rafael Ribeiro, 2, Cristiane Ribeiro, 43.

 

Foto de Arquivo

Cadeira

Cadeira escolar de Rafael adaptada para sua altura

 

Ela explica que não quis fazer como outros pais que encomendam carteira e cadeira. Quis mesmo adaptar. Como ia buscar sua filha mais velha na escola todos os dias, passava pelo maternal para verificar a altura do mobiliário escolar. Rafael estava com dois anos completos quando entrou na escola, neste 2016.

 

Foto de Arquivo

Ele

Coleguinhas do Rafa do Colegio Marista Dom Silverio – Belo Horizonte, Minas Gerais

 

A mãe ficou satisfeita de adaptar a cadeira da própria escola, o Colégio (particular) Marista Dom Silverio de Belo Horizonte, Minas Gerais. “Inclusive no desfralde, eu nem precisei procurar a coordenação para fazerem uma adaptação para o Rafa usar o vaso sanitário. A própria professora pediu que a escola mandasse fazer uma adaptação para ele poder usar o vaso como os colegas”, reitera Cristiane.

 

Foto de Arquivo

Cadeira

Lateral da cadeira escolar de Rafael adaptada

 

Ela esclarece que o investimento foi mínimo. Fez o encosto como uma almofada com a costureira e o degrau foi presente de um amigo que fabrica móveis. “A ideia dessa adaptação foi do meu marido. Porém já tinha lido na página da Inês e na fundação Alpe sobre a importância da adaptação”, comenta.

 

Dúvidas

Algumas famílias ficam divididas entre promover ou não adaptações para crianças de baixa estatura não apenas na escola como em casa e outros ambientes comuns aos pequenos pelo motivo citado por Márcia: “o mundo não é adaptado”. Mas eles sentem necessidades, muitas vezes.

 

Os pais do Gabriel, por exemplo, preferiram não adaptar cadeiras e mesas escolares, mas o limite de sua decisão foi a saúde do filho. “Não quisemos para não diferenciá-lo e ele não sentiu necessidade. Se adapta bem ao mobiliário e não tem problema na coluna. Este é o ponto a ser observado” sugere Juliana Yamin, mãe do Youtuber: “a saúde da criança”.

 

Infelizmente a boa vontade das instituições de ensino em se adequar, sejam elas públicas ou privadas não é uma realidade corriqueira no Brasil. Devido aos indicadores citados do início da matéria, inclusão social ainda é a ponta mais fraca da equação na qual as principais incógnitas são saneamento básico, água encanada e coleta de lixo.

 

Cabe, na maior parte das vezes, aos pais devotados a atenção de adaptar ou sugerir adaptação nas escolas dos filhos. Segue uma lista de sugestões que podem ajudar a escola do seu filho a fazer melhor com pouco:

 

1. Entrada e Circulação

O ideal é colocar rampas de acesso e orientar a passagem em locais com menor volume de pessoas circulando. A escola precisa construir rampas!

 

Elas devem dar acesso para qualquer nível elevado. As rampas devem ter corrimões apropriados e em duas alturas, um com 0,70 m e outro 0,92 m do piso.

 

É importante lembrar que esse acesso deverá ser facilitado também às quadras, brinquedos, salas de informática e outros ambientes usados pelos estudantes.

 

2. Portas

As portas da instituição precisam ser adaptadas para garantir a passagem de uma cadeira de rodas. É recomendado que a largura do vão seja de no mínimo 0,80 m e a altura de 2,10 m. Elas devem abrir para dentro!

 

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) desenvolveu o Manual de Acessibilidade da Instituição, que orienta e informa sobre as Medidas Padrão Para Cadeirantes. Você pode acessar o baixar o manual da acessibilidade aqui.

 

3. Sala de aula

O ideal é que as lousas sejam instaladas a uma altura inferior a 0,90 m do piso. Os móveis devem ser acessíveis e as fileiras (se for o caso) devem estar afastadas com a largura suficiente para a passagem de uma cadeira de rodas.

 

A mesa deve ter altura flexível chegando ao mínimo de 0,73 m do piso. Essa preocupação deve se estender ao refeitório e lanchonetes, para permitir que o aluno possa se alimentar confortavelmente.

 

Quem tem nanismo pode usar a adaptação citada pela mãe do Rafael, com um encosto mais proeminente e um apoio ajustável para os pés.

 

4. Banheiros

No mínimo 5% dos sanitários da escola precisam ser adaptados e é importante que haja pelo menos um banheiro reservado para cada gênero.

 

Além disso, 10% dos demais devem ser facilmente adaptáveis, caso se faça necessário por um aumento do número de alunos da escola.

 

Além de portas grandes e altura do vaso adequado, os banheiros adaptados devem possuir barras de apoio para o vaso sanitário e para os lavatórios.

 

5. Guichês, balcões e bebedouros

Todos eles devem ser adaptados, com fácil acesso e com portas, quando for o caso, que permitam a entrada de quem tem mobilidade reduzida. O ideal é que 50% dos equipamentos sejam acessíveis, com altura livre inferior de no mínimo 0,73 m do piso.

 

6. Símbolo internacional de acesso

Para indicar o acesso para deficientes físicos, bem como móveis especiais e banheiros adequados, é indicado usar o símbolo internacional de acesso. O ideal é que o símbolo seja desenhado em branco sobre o fundo azul, mas é aceito também em branco e preto.

 

 

 

Rafaela Toledo

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