Gigante Leo é sensação do UTC

No último domingo, 02, Gigante Leo foi o convidado de honra dos anfitriões Marcos e Matheus Castro que propuseram o jogo ao lado do elenco fixo composto por Luciana D’aulizio (a única mulher do grupo), Ed Gama (apresentador na edição de Goiânia), Fred Mascarenhas, Henrique Fedorowicz e Rafael Studart.

Ultimate Trocadilho Championship (UTC) é um concurso de trocadilhos onde dois comediantes se enfrentam em uma mesa, lendo cartas com trocadilho e improvisando aqueles que surgem. A vitória vai para quem conseguir permanecer na mesa sem rir.

Leo é quase um membro honorário do grupo. Já fez várias participações e é responsável pelo vídeo mais acessado do UTC, que concentrou 10 milhões de visualizações.

O Somos Todos Gigantes prestigiou o espetáculo com a presença de Gabriel, nosso Youtuber, e os pais, Juliana Yamin e Marlos Nogueira, idealizadores e patrocinadores da campanha e do site STG.

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Aproveitamos a visita dos comediantes à nossa cidade sede para matar a saudade de nosso humorista querido e debater um tema que para nós é bastante polêmico. Qual o limite da comédia? A reunião com vários profissionais da comédia proporcionou uma troca realmente rica onde cada um deu sua opinião e ampliou os horizontes do debate.

Foto de Divulgação
Henrique, Matheus, Fred, Luciana, Rafael e Marcos (da esq. para a dir.) se preparando para receber Leo no palco.

Leo chegou ao Teatro do Campus V da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) ostentando uma camiseta com os dizeres: “Eu só vim aqui porque têm um anão”, bordão que surgiu no programa.

A palavra, rechaçada por boa parte do público com nanismo não causa desconforto em Leo que já contou isso em palestra no 2º Congresso de Nanismo, ocorrido no Rio de Janeiro.

Foto de Divulgação
Leo enfrentando Henrique no trocadilho.

“A questão especificamente do UTC é que a pegada é fazer o outro rir e teoricamente a gente usa de qualquer artifício. Lógico que dentro de um contexto de razoabilidade. Não vamos agredir ninguém. Até porque isso não faz ninguém rir. Mas entre nós, a gente brinca muito no próprio jogo. E como se brinca como todos eles, com características pessoais porque um é careca, o outro é narigudo… brinca-se comigo também porque sou anão”, comenta Leo.

Para o ator, a brincadeira é uma forma de inclusão. “Porque se você não pode brincar comigo, aí sim, ficaria uma coisa diferenciada. Ao mesmo tempo, temos muito cuidado. Não queremos magoar ninguém. Tem também a questão de cair no óbvio, o que é uma tendência muito natural deste tipo de espetáculo. Improviso. Você tem que tirar da cabeça então às vezes não está funcionando nada e a gente cai para o óbvio. Porque funciona. Mas isso acontece não só comigo. É do jogo”, explica.

Para Gigante Leo, o que realmente importa é a piada ter graça. Rafael Studart concorda. “Acho que tudo se resume ao bom profissional e mal profissional. O comediante pode arrancar risada da galera de uma maneira fácil mas a galera vai esquecer. É esquecível. Mas para ser O Comediante, O Profissional da Comédia, requer prática, pensamento, trabalho árduo. Entender quem é o seu público. Pode surgir o caminho mais fácil no momento de desespero, mas a gente trabalha para evitar isso”, comenta Rafael.

Foto de Divulgação
Leo encara Ed.

Luciana emendou: “Na verdade, tem toda uma relação de proximidade e intimidade com o Leo e a gente se sente a vontade de fazer algumas brincadeiras porque sabemos que é tranquilo para ele mas que, antes de tudo, Leo é um comediante. Porque o mais importante dentro de cena é trabalhar com isso. Eu acho que as diferenças não são para serem ignoradas. O fato de ter uma pessoa com estatura completamente diferente das demais é obviamente algo que chama atenção. Mas a gente ficar só fazendo piadas em relação a isso, piadas sobre esteriótipos, limita muito algo que pode ser muito melhor”.

Marcos Castro, idealizador de toda da brincadeira e esposo de Luciana complementa: “Importante deixar claro que a piada não depende só do emissor mas também do receptor. A gente só faz piadas com o Leo porque ele é nosso amigo, como a Luciana disse, mas sobretudo porque ele está presente. Ele, em qualquer momento, tem o direito de resposta”. Marcos conta ainda que os conteúdos também são sempre debatidos entre eles, inclusive com críticas do Leo, quando necessário, em nome da boa comédia.

Foto de Divulgação
Marcos e Leo.

“Aí fica também nosso aprendizado porque também não pode ser tudo pela piada. Também acho que faz parte do humor não só divertir as pessoas mas agregar. E se a gente faz uma piada que exclui ao invés de incluir, a gente está segregando. Estamos fazendo um desserviço”, finaliza Marcos.

Continuando a discussão sobre o aprendizado social coletivo que é a inclusão, Ed Gama, o único nordestino do grupo compartilha sua opinião também: “Eu nunca vou conseguir entender as dificuldades que Leo tem para enfrentar seu dia a dia. Então a empatia que tenho pelo Leo é a partir do que eu conheço, do que ele me passa, e assim são as peculiaridades da vida humana. Eu acho que o ser humano convive com a diferença todos os dias e a gente vai aprendendo com isso. A sociedade vai evoluindo. Eu acho que o fato da gente trabalhar com o Leo e usar o humor para dar espaço e divulgar sobre o Nanismo, faz com que a sociedade entenda que muitas vezes algo que parece engraçado não é piada. É, na verdade, pejorativo. Trabalhar com Leo e fazer este tipo de humor que é de improviso, de muita liberdade, é um aprendizado onde entendendo o universo do Leo, a gente entende o que é piada e o que, na verdade, é uma barreira. A gente passa a moldar nossa visão do humor para tratar desse assunto. Eu acho que é importante incluir a diferença. A gente vive numa sociedade extremamente plural. Cada um tem as suas particularidades. Antigamente as pessoas não tinha voz. Você não tinha como expressar. Aí quando a gente escuta as pessoas dizerem que nos anos 70/80/90… todo mundo ria disso ou aquilo… é porque no passado não existia o acesso à informação como é hoje. Essas pessoas sempre se sentiram ofendidas. Hoje, as pessoas dizem que se sentem ofendidas. Podem se manifestar. O mais importante para nós como comediantes é saber evoluir, abrir nossa mente e saber que o passado não nos representa mais. Estamos em um novo momento onde temos que incluir as diferenças”, falou o apresentador do jogo.

Foto de Divulgação
Beijo técnico de Leo e Ed (risos).

Rafael complementou dizendo que acredita que boa parte da resistência dos comediantes em relação ao limite da comédia vem do lado conservador. “Eles acham que é um direito, por exemplo, fazer piadas machistas… que é um direito fazer piadas com quem tem nanismo… quando, na verdade, foi um sistema ditado pelos privilegiados que ninguém naquele momento questionou porque era uma sociedade mais preconceituosa”.

“A internet mudou muito isso. Fez as pessoas se juntarem, se organizarem. E eu acho que é isso mesmo. Tem que fazer isso mesmo”, complementou Henrique, em sua única participação no debate. Fred não se manifestou.  

“No UTC, como programa humorístico, temos que tentar mostrar o Leo com seu talento e deixar que isso fale por si só. Às vezes, não é o suficiente para este debate mas ter a oportunidade de abrir caminho para o canal do Leo, onde ele tem controle da mensagem e tendo as pessoas dispostas a ouvir, é o melhor a fazer. Porque se a gente fica muito didático, profundo, [no UTC] as pessoas não gostam. Porque o formato não permite. A graça é justamente o momento, o impacto, o trocadilho. É um quadro cômico de improviso”, opina o irmão de Marcos, Matheus Castro.

Luciana finaliza dizendo que no debate da inclusão a primeira coisa relevante é o reconhecimento das diferenças. “Você precisa reconhecer que o outro é diferente para pensar em mecanismos sociais que dão igualdade de acesso e oportunidade. Eu acho que até em termos de humor mesmo, é saber que o outro é diferente e saber que, às vezes, é a diferença que gera identificação com a plateia”.

Foto de Divulgação
Galera recebendo os aplausos da plateia ao final.

A turma não pega leve com Leo. Eles acreditam que condescendência seria desrespeito com seu talento.

Após algumas brincadeiras na abertura do espetáculo, Ed Gama convidou todos os participantes do elenco para o palco mas foi o último anunciado, o convidado Gigante Leo, o mais ovacionado no Teatro da PUC em Goiânia. Foi ele também quem ganhou o jogo.

Além das participações periódicas no UTC, nosso gigante tem se dedicado mais efetivamente à sua peça de teatro “Mentira tem perna curta”, escrita há quatro anos por ele e exibida pela primeira vez no Rio de Janeiro em uma curta temporada em setembro do ano passado no Teatro Miguel Falabela do Norte Shopping.

Este ano, vai levar o espetáculo à Manaus, provavelmente Florianópolis e outras localidades, ainda em prospecção.

A peça também coloca a pessoa com Nanismo em outro local incomum: “Temos mania de imaginar a pessoa com deficiência e o velhinho como anjinhos. Pode ser… Mas pode ser filho da puta… A peça mostra a pessoa com Nanismo como 171, trambiqueiro”, brinca Leo relembrando o papel em que estreou no cinema como filme O Concurso. Na ocasião, ele encarnou um chefe de boca que vendeu o gabarito do concurso para os participantes, papel que também fugiu da discussão sobre a deficiência e da benevolência que cerca o imaginário em torno de personagens com nanismo.

Rafaela Toledo

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