Dias de folia para quem tem nanismo

Marcela Perrota. Foto: Acervo pessoal
Para a carioca Marcela Perrota, o Carnaval é uma das melhores épocas do ano. Foto: Acervo pessoal

Carnaval: ame-o ou deixe-o. De que lado você está? Para pessoas com deficiência, curtir a festa se torna um programa um pouco mais complexo. Nas ruas, os blocos levam multidões, mas nem sempre há uma estrutura adequada para receber todas as pessoas.

No Rio de Janeiro, por exemplo, ao todo 415 blocos desfilam pelas ruas da cidade. A carioca Marcela Perrota, de 31 anos, é uma das que amam Carnaval. No entanto, sendo uma pessoa com nanismo, com 1,26m de altura, curtir os blocos requer algum planejamento.

“Como no Carnaval eu frequento blocos de rua, a acessibilidade é aquela coisa padrão Rio de Janeiro/Brasil, quase zero. Eu herdo muita acessibilidade de outras deficiências, mas também acho que, por conta do meu tipo de nanismo [acondroplasia], isso não prejudica muito a minha mobilidade, mas fico pensando em outros tipos de deficiências que seriam bem complicadas de curtir o Carnaval de rua, como, por exemplo, os cadeirantes, pois as condições das ruas e vielas não são boas”, contou Marcela. Para quem tem nanismo, a ida a banheiros públicos, principalmente químicos, por exemplo, é um obstáculo que se tenta evitar. “Banheiro químico é o que eu mais tenho dificuldade, sempre tenho que ‘subir’ na privada e nem sempre é fácil, ainda mais com fantasia”, explicou.

Marcela Perrota. Foto: Acervo pessoal
Marcela escolhe blocos em que os foliões sejam mais agregadores. Foto: Acervo pessoal

Além da infraestrutura não adequada para quem tem deficiência, a quantidade de pessoas na rua é motivo para pensar que roteiro seguir no Carnaval. “Em relação à multidão, eu procuro blocos em regiões com bastante espaço ou blocos de médio porte, mas sempre estou acompanhada de bastante gente, então fica tranquilo”, disse. Mas nem sempre os foliões que seguem os blocos são educados com quem tem deficiência. “As pessoas acham que podem tudo: tirar foto de mim, me puxar pelo braço (principalmente homens), passar a mão no meu cabelo, apontar etc. Mas eu procuro frequentar blocos mais alternativos, com menos ‘heterotops’ (risos), que fazem esse tipo de coisa. E, por frequentar esses blocos, a galera costuma ser mais agregadora, então, às vezes, eu fico bem no meio dos músicos e isso é bem positivo”, revelou.

Mesmo com as dificuldades, quem ama Carnaval espera com ansiedade o ano inteiro para essa época. Inclusive os preparativos. Para Marcela, depois de curtir os blocos, fazer fantasia é sua parte favorita do Carnaval. “Todo o processo de salvar as referências no Pinterest, fazer uma curadoria do que eu já tenho em casa, ir em eventos de troca de fantasia e ir no Saara [região de comércio popular] comprar o que falta é uma terapia pra mim. Eu amo, fico pensando em fantasias de Carnaval dia e noite quando está se aproximando. Eu não estou exagerando, perco o sono. Eu tenho uma caixa enorme cheia de fantasias dos anos anteriores que eu aproveito pra usar no pré-Carnaval”.

Marcela Perrota. Foto: Acervo pessoal
Ela customiza suas próprias fantasias e reaproveita peças de anos anteriores. Foto: Acervo pessoal

Apesar de ainda estarmos longe de uma estrutura adequada para pessoas com deficiência curtirem a maior festa popular do país, o Carnaval faz todo o clima mudar. “O que eu mais curto nos blocos são as músicas, os ritmos, o fato de todo mundo ali pelo mesmo propósito: se divertir, não ligando para o sol, calor, xixi, para os problemas da vida. Parece que no Carnaval a vida dá um stand by para tudo que nos aborrece no dia a dia e todo mundo que gosta da folia vibra na mesma sintonia, então eu amo esse clima”, contou Marcela.

Sabrina Pirrho

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