Depressão

Veja como a rotina de um mundo que ainda não foi educado para respeitar as diferenças afeta a saúde emocional de alguns pequenos

Veja como a rotina de um mundo que ainda não foi educado para respeitar as diferenças afeta a saúde emocional de alguns pequenos

Foto: Fatos Desconhecidos

 

 

Andar por aí e sempre notar alguém te olhando. Gente tirando foto sem te conhecer ou pedir autorização. Ser chamado por nomes que lhe desagradam. Se pararmos para pensar, o preconceito interfere diretamente na qualidade de vida dos pequenos.

 

Desde a escola primária, em forma de bullying, até a violência das brincadeiras dos colegas mais velhos no colegial; o fato é que pessoas pequenas são sempre alvo de julgamentos e conversas indelicadas. Isso é tão nocivo que acaba atingindo diretamente a saúde emocional de alguns.

 

Sem falar das barreiras de altura o tempo todo dificultando as coisas. Quase impossível pegar um ônibus, os bebedouros sempre altos, nada de banheiros adaptados, sendo que a necessidade de pequenos e médios é a mesma. Realmente as limitações podem ser determinantes na hora de separar os dias tranquilos dos tensos.

 

Veja o caso de três pessoas que compartilharam sua experiência com o Portal Somos Todos Gigantes, com o objetivo de mostrar o quanto o preconceito é perigoso e orientar os leitores a não se deixar abater pela falta de acessibilidade. Esta também é uma barreira que será transposta.

 

Fatima Freitas, 37

Tem

Foto de Arquivo

 

Fátima mede 1, 46 m, altura que nem é considerada como nanismo. Mesmo assim a baixa estatura atrai os olhares maldosos a ponto de Fátima nem ter mais ânimo para mais nada.

 

“Eu acho que tenho muita vergonha por ser pequena. Já não trabalho mais, me escondo das pessoas”, conta. Ela já tentou terapia mas sem resultado. Acabou desenvolvendo ostracismo e quase não sai de casa.

 

Fiquei assim por causa das pessoas. Fui guardando muita coisas dentro de mim”, explica. A entrevistada é casada e tem um relacionamento feliz, conforme conta. Ele estimula ela a sair mas segundo Fátima, o medo é muito grande das pessoas rirem dela.

 

Ela não faz terapia, mas encontrou consolo em um grupo de Whatsapp só de pessoas com nanismo e de pais e mães de crianças com a condição. Lá ela encontrou alguém que se sentia como ela e que superou esta sensação de impotência frente ao preconceito.

 

Conversar com alguém que passou ou passa por uma situação semelhante pode aliviar e até apontar caminhos para uma possível cura desta depressão. Principalmente se identificada a razão.

 

CV, 52

CV prefere não se identificar. Mede 1.20 e tem muitas responsabilidades. “Cuido da minha mãe doente com 89 anos já. Tenho que dar banho, trocar fraldas. Tenho mais quatro irmãos. Eles não são anões, mas não vêem que sou pequena e não estou dando conta. Acho que se eu fosse maior seria mais fácil para mim”, lamenta a entrevistada.

 

Ela se sente sobrecarregada e a rotina de trabalho dentro de casa com a mãe doente além de exigir muito esforço físico, deixa CV deprimida. “Acho tudo mais difícil. Por ser pequena”, explica.

 

Dentro de casa ela não adaptou móveis. Na realidade mora na casa da mãe com os os filhos e o ex-marido, e não pode trabalhar fora já que é beneficiária da Lei Orgânica de Assistência Social.

 

Além de cuidar da mãe, ella comenta que também assume as funções domésticas. Cristina demonstrou esgotamento durante a entrevista, mas no dia seguinte alegou estar melhor. Isto porque apesar de se sentir fraca, ela não desistiu dos seus propósitos diários e persistiu sobre as barreiras das limitações físicas.

 

Thaís Cristina Santos Brito, 36

Ambos

Foto de Arquivo/ Thaís e Gustavo

 

Thaís é mãe do Gustavo, 7. Ele tem hipoacrondroplasia, um tipo raro de nanismo caracterizado por estaturas maiores do que a dos acondroplásicos – o tipo mais comum de nanismo. Dona de uma estatura de 1,78 e filha de um pai de 1,95; a notícia de um filho “anãozinho”, de forma inesperada e insensível, foi um choque.

 

Thaís recebeu a notícia já na última ultrassom no nono mês de gravidez. Ela ficou muito deprimida e teve o final de gravidez muito complicado pela dor que sentia com a notícia daquele diagnóstico.

 

Hoje em dia, Thaís continua com a terapia que começou desde que Gustavo nasceu mas se sente melhor. “A terapia é um excelente escape porque você vai contar da sua dor e das suas tristezas e das suas angústias para alguém que não vai te julgar. Ou que não vai concordar”, observa a mamãe.

 

No último ano, em 2016, Gustavo também começou tratamento com a psicóloga inicialmente por mau comportamento na escola. A mãe explica que o menino ainda não sente o preconceito e que aprende a cada dia formas de lidar com ele para ensinar o filho.

 

“A psicóloga tem me orientado muito. Como eu devo fazer, o que eu devo falar, o que eu não devo falar. Não deixar ele à vontade, porque ele aproveita da minha boa vontade e eu errei muito nessa parte de superproteção. Nós fazemos a terapia até hoje. Eu melhorei muito. Tem momentos que eu penso como que vai ser no futuro, e sofro, mas não como antigamente”, esclarece a entrevistada.

 

Opinião da Especialista

O tratamento psicológico é interessante para os portadores de nanismo e para os seus familiares, segundo Fernanda Souza, 40, psicóloga e mãe Gabriel de 3 anos, com Acondroplasia.

 

“Para os familiares pode ser indicado desde que sintam a necessidade de trabalhar questões sobre aceitação da deficiência (para famílias em que ocorre o 1º caso, por exemplo), aspectos sobre a forma de tratamento e educação a adotar com a criança, visto que algumas podem apresentar algum atraso no desenvolvimento motor fazendo com que a família adote uma postura que não condiz com a sua idade real cronológica ou mesmo que em virtude de um tratamento super protetor a criança venha desenvolver comportamentos que prejudiquem o seu relacionamento interpessoal”, explica.

 

Em geral, para quem tem nanismo, o tratamento psicológico pode ser mais adequado na fase da adolescência, conforme ela explica. Nesta fase podem surgir questões próprias da fase do desenvolvimento e que em alguns casos se agravam para quem tem baixa estatura. “Na minha opinião, o tratamento psicológico seria indicado principalmente para a família, pois é ela quem dará a base para o seu desenvolvimento psicossocial”, completa Fernanda.

 

Obviamente, cada caso é único e algumas crianças podem demandar aconselhamento profissional mesmo antes deste período, como foi o caso de Gustavo, filho de Thaís, que apresentava problemas na escola. Neste caso Fernanda aconselha a manter o diálogo aberto na escola e com os coleguinhas também.

 

“Sou a favor de manter diálogo com as crianças e explicar para os amigos porque cada um é diferente. Em geral as crianças mais novas não apresentam preconceito, apenas curiosidade. Quando explicamos isso deixa de ser importante. Os pais e os professores podem trabalhar essas questões no dia a dia”, sugere. Em caso de problemas com colegas de turma, a sugestão da especialista é procurar os responsáveis e esclarecer o ocorrido, informar sobre a deficiência para que conversem com seus filhos. O esclarecimento deve ser sempre o primeiro caminho a se procurar”, aconselha.

 

A melhor maneira de vencer o preconceito é amando seu filho. Tratando ele como os outros, sem facilitar ou dificultar a sua vida no dia a dia. Ensinando a ter auto estima. Reforçando os aspectos em que ele se destaca. Estimulando para que ele estude, tenha uma profissão e seja independente, pois os pais não estarão presentes para protegê-lo por toda a vida.

Rafaela Toledo

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